Palavras de Alento

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26 de nov. de 2013

O Profeta - Khalil Gibran


Das leituras que estavam por concluir quando escrevi esse post em agosto, O Profeta - de Khalil Gibran, me trouxe lições valiosas.  A obra foi publicada originalmente em 1923, mas traz mensagens atualíssimas, como se a humanidade não tivesse mudado muito nesses 90 anos. Selecionei alguns trechos para os leitores do blog.


A visão de um homem não empresta suas asas a outro homem.
Mesmo aqueles que mancam, não andam para trás.
Quando vos separais de vosso amigo não se aflijas, pois o que amais nele pode tornar-se mais claro na sua ausência.
Vosso corpo é a harpa de vossa alma: A vós pertence tirar dele música melodiosa ou ruídos dissonantes. 
A vida e a morte são uma e a mesma coisa, com o rio e o mar são uma e a mesma coisa
Somos as sementes de uma planta tenaz, e é quando amadurecemos e atingimos a nossa plenitude de coração que o vento se apodera de nós e nos espalha.
 Deus repousa na razão e age na paixão.
A vossa razão e a vossa paixão são o leme e as velas de vossa alma navegante.
Quando o amor vos chamar, segui-o.
Amai-vos uns aos outros, mas não façais do amor um grilhão. 
O trabalho é o amor feito visível .
Vossos filhos não são vossos filhos, são filhos da ânsia da vida por si mesma. Vêm através de vós, mas não de vós. E embora vivam convosco, não vos pertencem.
 E você, meu caro leitor, se identificou com algum desses trechos? Conte-me já!

21 de set. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XLII

Depois daquele beijo no hospital ela ficara totalmente desnorteada. Já não sabia o que queria ou o que faria. O Homem Sem Tempo deixara bem claro que não abriria mão do amor que sentia, muito menos abriria mão dela. Falaram-se algumas vezes pelo celular e embora ela sempre pedisse, ele não parou de procurá-la.
Tentou manter a cabeça em ordem e se preocupar apenas com a saúde do próprio pai. Passaria o dia com ele. Eram quase oito horas quando adentrou o estacionamento do hospital procurando uma vaga. De repente o viu se aproximando de um carro com as chaves na mão. Antes que pensasse no que fazer, ele a viu. Sorriu e veio na direção do seu carro. Tinha a barba por fazer e o cabelo despenteado. Ela abriu a janela retribuindo-lhe o sorriso discretamente.
- Bom dia, moça, tem uma vaga lá no final. - disse ele, já entrando no carro dela.
Assim que puxou o freio de mão, ele aproximou-se e beijou-a. Como resistir àquelas investidas tão diretas, se  mal tinha certeza do que queria?
Imagem daqui
Ficaram ali por meia hora, conversando. Ela lhe contou suas angústias com relação à saúde do pai e ele tranquilizou-a, explicando alguns detalhes da cirurgia e da provável recuperação de seu genitor.
Após meia hora ele olhou para o relógio e anunciou:
- Preciso ir.
Ela não disse nada, esperou que ele saísse do carro, mas ao invés disso, ele beijou-a novamente e não lhe restou outra coisa a não ser entregar-se aos beijos e apelos dele. Segurando seu rosto com as duas mãos, e  olhando-a nos olhos, ele disse:
- Senti uma saudade imensa de ti, de te amar... uma saudade que quase me enlouqueceu, eu preciso de você!
- Vai, eu tbm tenho que ir ver meu pai. - afastou-se dele e falou meio sem certeza.
Ele assim o fez. Ela então desligou o carro e rumou em direção ao elevador. Seu celular tocou. Era ele.
- O que foi... esqueceu alguma coisa? - ela perguntou, preocupada, ao atender.
- Esqueci sim. Esqueci de dizer que eu te amo!


23 de ago. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XLI

Estava encostada numa parede, no corredor do hospital, à espera de notícias sobre a cirurgia de seu pai. Ainda não conseguira compreender como o destino pôde ser tão irônico com ela, pondo novamente o Homem Sem Tempo em seu caminho, após ter decidido que não o queria mais em sua vida. 
O reencontro a deixara totalmente desnorteada, trazendo à tona sentimentos reprimidos e comprovando que ainda o amava. Tentava concentrar suas energias na melhora de seu pai, mas mal conseguiu concluir seus pensamentos quando viu seu amado sair pela porta do centro cirúrgico.
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Ele retirou as luvas, a máscara, os óculos e veio em sua direção, sem dizer uma única palavra. Segurou-a pelo braço e praticamente arrastou-a pra dentro de uma sala, cujo acesso era permitido apenas a funcionários. Lá dentro, antes que ela pudesse dizer uma única palavra, ou perguntar o que estava acontecendo, ele encostou-a contra uma parede, cercou-a com os braços e beijou-a de forma intensa.
Ela pensou em empurrá-lo, esmurrá-lo, xingá-lo e despejar sobre ele toda a angústia causada pela ausência e falta de coragem dele, mas, ao invés disso enlaçou-o pelo pescoço e entregou-se completamente àquele beijo. Desejava, nem que fosse por um momento, esquecer todos os problemas que estava enfrentando.
Quando o beijo terminou, ficaram alguns segundos abraçados, respirando profundamente. Ele sentia o cheiro dela, que acariciava os cabelos dele, como se não fossem mais sair dos braços um do outro. Ele olhou-a nos olhos:
- Agora você pode me esbofetear, me xingar e me acusar do que quiser. Só não vai mais fugir de mim.
Afastou-se, deu alguns passos pra trás, abriu a porta e saiu dizendo:
- Eu volto!

To be Continued

27 de jul. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XL

Chegara no Brasil há uma semana e desde então não tivera um minuto de tranquilidade. Não era apenas pela dor de ver seu pai internado numa Unidade de Terapia Intensiva, sentia culpa por ter-se ausentado tanto, medo de perdê-lo e ainda teve que engolir as palavras duras que sua irmã lhe lançara, acusando-a de estar ausente e não dar a devida atenção que sua família necessitava e merecia.
Após cinco dias, seu pai fora para o quarto e ela passara essa noite ao lado dele, velando seu sono, acompanhando cada movimento e relembrando bons momentos vividos ao lado dele. Talvez sua irmã estivesse mesmo certa, concluíra, ao raiar do dia. Ficaria no Brasil o tempo que fosse preciso, até ver seu pai recuperado.
Passava das oito da manhã, quando a companheira de seu pai chegou para passar o dia com ele.
- Vá pra casa descansar, meu anjo. As noites no hospital são muito cansativas.
Uma enfermeira trouxe medicação para seu pai e anunciou que o médico plantonista já viria vê-lo. Ela então entrou no banheiro para arrumar-se e ir embora. Escovou os dentes, prendeu os cabelos e olhou a aparência abatida no espelho. Estava lavando o rosto quando escutou uma voz familiar. Era o médico.
- Bom dia! Eu faço parte da equipe que vai fazer a sua cirurgia amanhã. Como o senhor está se sentindo hoje? Espero que o seu quadro continue evoluindo, assim poderemos...
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"Oh, Deus, por favor, não!". Pensou alto, numa súplica desesperada. Era o Homem Sem Tempo, reconheceria essa voz aonde quer que fosse. 
Como poderia o destino ser cruel a esse ponto? Encostou-se na porta, sem coragem para sair dali. Agora ele conversava com sua madrasta, falavam mais baixo, provavelmente sobre a cirurgia. Abriu uma fresta na porta por onde pode vê-lo, de costas, tinha o cabelo bem aparado e vestia um jaleco branco. Teve a sensação do perfume dele invadindo suas narinas.
Fechou a porta do banheiro novamente e esperou que ele se fosse, para então voltar ao quarto.
- A cirurgia de seu pai foi marcada para amanhã, às nove horas. Você virá? - perguntou a madrasta, quando ela retornou ao quarto.
- Sim, claro. Vou chegar cedo. - respondeu titubeando, mas com a certeza de que àquela altura não podia mais fugir.

To be Continued

29 de jun. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXIX

Acordara assustada, com o toque insistente do celular. Ainda era madrugada, olhou o aparelho e embora não reconhecesse o número, sabia que a ligação vinha do Brasil. Atendeu, receosa. Pelos seus cálculos ainda não era meia noite em seu país de origem.
- Você precisa vir pra cá o mais rápido possível! - Era a voz da sua irmã, num tom autoritário, inadmissível àquela altura de suas vidas. 
Respirou fundo e tentou dizer alguma coisa, quando foi interrompida por uma voz desesperada, que parecia tentar abafar um choro:
 - O pai enfartou!
Seu coração gelou. Pulou da cama,procurando o que vestir. Não sabia o que dizer à irmã, só pensava no lapso enorme de tempo que a separava da família. Havia meses que não se viam e semanas sem dar notícias. Culpou a si mesma, desculpou-se com a irmã e prometeu viajar imediatamente.
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Arrumou as malas, deixou um bilhete para a Garota Francesa na porta da geladeira e tomou um taxi para o aeroporto. No caminho enviaria um e-mail ao seu orientador explicando a necessidade de ausentar-se por uns dias. Estaria de férias da Universidade dali a uma semana, mas ainda havia pendências. Nada que não se resolvesse a distância.
Sua preocupação maior agora era saber o real estado do velho. Perdera a mãe muito cedo e seu pai só voltou a unir-se a outra pessoa depois que as filhas estavam adultas. Era uma senhora simpática, que dedicava-se a ele e lhe fazia companhia, mas ela também já inspirava cuidados. Reconhecia a necessidade de se fazer mais presente, não deveria sobrecarregar a irmã.
Ao desembarcar no Brasil, lembrou-se imediatamente do Homem Sem Tempo. Era torturante saber que estavam agora na mesma cidade, mas não poderiam se ver. Havia decidido colocar um ponto final naquela história e, por mais que lhe doesse, não voltaria atrás.
Espantou aqueles pensamentos sombrios e resolveu cuidar do que era certo.

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8 de jun. de 2012

A história secreta da Mulher Só e de Homem Sem Tempo

Capítulo XXXVIII

Era a terceira dose de gim tônica que ela tomava. Sentia um mix de euforia e depressão, que oscilava a depender da quantidade de pessoas a seu redor. Se os amigos se ausentava, logo vinha a lembrança do Homem Sem Tempo e uma saudade que lhe esmigalhava a alma. Sentia falta dele, da sua voz, do cheiro, das palavras no e-mail, que seria capaz de cair num pranto que duraria horas, ainda mais depois de tanta bebida.
Mas, pra sua sorte, ela não estava só. A Garota Francesa voltou da pista, e, animadíssima, tomou de uma vez uma taça de margarita frozen, depois pegou a amiga pela mão e arrastou-a para a pista de dança. Juntaram-se a um grupo de conhecidos que dançava freneticamente e, numa espécie de palco que imitava uma cabine, sob uma luz piscante, estava o DJ Catalão em ação. Seus olhos se cruzaram e ela teve a impressão de que ele estava o tempo todo observando-a. Sorriu, acenou  para ele e virou-se tímida.
Poderia alguém ser tão lindo, estar disponível, e ela não conseguir interessar-se nem um pouco?
Mais tarde, quando outro músico assumiu o comando da pista, o DJ Catalão juntou-se ao grupo. Àquela altura, a Mulher Só já havia tomado muitas doses e um sorriso confuso brotara em seu rosto. Ela, porém, sentia-se cansada e quase deprimida, pelos excessos da noite.
Levantou-se, anunciando que iria embora, e o belo rapaz de olhos azuis prontificou-se a acompanhá-la. Do lado de fora da boate, sentindo a brisa da madrugada no rosto, achou melhor ir sozinha para casa.
- Não precisa vir comigo, eu pego um taxi - disse, já acenando para um carro.
- Ok, mas eu queria que soubesses o quanto foi especial tê-la aqui essa noite.
Segurou-a pelos ombros, era muito mais alto que ela, fez menção de beijá-la. A Mulher Só sorriu, a delicadeza com que ele a tratava chegava a constrangê-la. Tentou despedir-se à moda brasileira, com dois beijos no rosto, mas ele não compreendeu o gesto e acabaram se beijando.
O que seria uma despedida, acenou a possibilidade de um novo começo.

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18 de mai. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXVII

Agora que já não tinha notícias dele, os dias pareciam se arrastar. Um vazio assustador se instalara em sua vida e a Mulher Só se perguntava o porquê de sentir-se assim. Sabia que já deveria estar acostumada com a ausência dele. E sabia também que essa sensação advinha da falta de esperança que aqueles dias cinzentos lhe traziam.
No início recebera alguns e-mails e telefonemas dele, onde reafirmava não estar conformado com a decisão que ela tomara. Recusava-se a aceitar o fim da história deles, pois, segundo ele, seu sentimento só aumentava. Fizera questão de deixar claro que estaria sempre a espera dela. E para a Mulher Só isso teve o efeito de uma piada de mau gosto. Que ficasse então a esperar por algo que ela definitivamente não estava disposta a rever.
Enquanto mantinham a relação, ela alimentava a esperança de um dia estarem juntos de fato. Mas agora que pusera fim ao romance seus dias eram de solidão e desalento. ainda assim não pensava em voltar atrás. Tentava divertir-se ou focar suas energias nos estudos, mas a lembrança dele e a sensação de vazio no peito só lhe traziam mais frustração.

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28 de abr. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXVI

Após uma semana tumultuada, o Homem Sem Tempo cogitou tirar férias. Sentia-se esgotado. Casado de si e da própria vida. Sorriu, pensando na possibilidade de retornar a Barcelona para rever sua amada. Mas suas obrigações o sufocavam. Não poderia entrar em férias naquele momento. Havia pacientes em acompanhamento e ninguém para substituí-lo.
Adentrou o consultório e ligou o computador. Em casa tornara-se impossível manter qualquer tipo de contato com a Mulher Só. Sua Esposa estava sempre atenta, notando cada passo seu. Abriu seu correio eletrônico e viu uma mensagem dela com o seguinte título: 
AMOR palavra que liberta.
Apoiou os cotovelos sobre a mesa, e o queixo sobre as mãos cruzadas. Não precisava ler aquilo, já sabia o que continha ali. Ainda assim o fez, com o semblante transtornado.
 “Custei muito a tomar essa decisão, e preferi informá-lo por e-mail, porque não quero correr o risco de ouvir sua voz ou olhar nos seus olhos e desistir. 
Você já deve saber do que se trata, deve imaginar que, iniciando um e-mail assim, só posso estar falando do nosso fim. Talvez nem seja o fim, talvez seja uma pausa. Ocorre que eu não estou mais disposta a dar continuidade à essa nossa história.
Continuemos amigos, se for possível. Amantes mais não!
Definitivamente, não tenho vocação pra esse tipo de relação. Houve uma época em que eu foi bom esperar por você, por seus telefonemas e e-mails. Mas estar em segundo plano na vida do homem que eu amo, é coisa que não quero viver nunca mais.
Perdi o controle, fui longe demais.
Não digo com isso que deixei, ou vou deixar de amá-lo. Mas descobri que, se for pra dedicar meu amor a alguém, que seja alguém que esteja perto de mim, que seja presente.
Sinto muito, sei que não querias isto, mas estou sendo extremamente verdadeira contigo. E foi bom ter tomado essa atitude agora, antes que essa nossa história vá mais longe. Preciso deixar você viver a sua vida, sua família, seu trabalho, seus projetos.
Quero que sejas muito feliz, eu o amo muito, do contrário não teria estado nessa relação até hoje. 
Perdoe se achas que sou fraca, talvez seja mesmo, mas acredito que estou protegendo a todos.
Estou nos libertando!
Um abraço!”
Resignado, ele fechou a página da internet e interfonou para a secretária:
- Mande entrar um paciente.

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3 de abr. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXV

Procurou uma mesa à sombra e sentou-se. Tirou o notebook de dentro da bolsa, colocou-o sobre a mesa e pôs-se a ler alguns e-mails. Não havia nenhuma mensagem do Homem Sem Tempo. A falta de notícias dele a fazia mergulhar num poço de angústia. Era sempre assim durante os finais de semana. Assim, a chegada da segunda-feira era quase um presente. Ele telefonava-lhe logo cedo, ou enviava um e-mail na hora do almoço. Mas naquele dia foi diferente. 
Fechou os olhos, relaxou os ombros, respirou fundo e encostou-se na cadeira. Reavaliou suas escolhas, repensou sua vida, seus caminhos e concluiu que não queria mais sofrer a esperar por algo que talvez nunca viesse. Precisava daquele homem por inteiro, não merecia estar em último lugar na vida de quem tanto amava. Sentia que era chegada a hora de por um fim àquela história que não deveria nem ter começado. 
- Hola guapa! 
Era o DJ Catalão já puxando uma cadeira para sentar-se ao lado dela. Trazia consigo um sorriso que iluminava tudo e o azul nos olhos ainda mais intenso sob o sol do verão daquela tarde triste. Ela sorriu também, esquecendo-se por um instante de seus dissabores. Ele beijou-a no rosto e ela fechou o notebook. 
Tomaram um suco e conversaram um pouco, até que finalmente ele perguntou o que havia de errado. Notou que apesar do esforço, ela não parecia feliz.
- Estou tomando coragem para terminar uma relação que já não me traz alegria, só preocupação. 
Ela relatou brevemente a história, e ele ouviu atentamente, porém calado. Ela continuou:
- O que você acha?
- Prefiro não opinar acerca disso. Não seria ético da minha parte interferir na sua decisão.
A Mulher Só aquiesceu. Respeitou e admirou a postura dele, mas sua decisão já estava tomada. Abriu o computador novamente e escreveu um longo e-mail. Por um momento esqueceu-se da presença do amigo, que sorvia lenta e silenciosamente um suco de abacaxi.
- Pronto! Acabou. - anunciou, desligando o computador - Agora preciso cuidar da minha vida!
Deu-lhe um beijo no rosto e saiu, sem ouvir nenhuma palavra vinda dele.
O DJ Catalão ficou observando-a afastar-se e um sorriso começou a brotar em seu rosto outra vez. Chamou o garçom. 
- Uma cerveja, por favor. Preciso comemorar! 
E riu sozinho, vendo seu objeto de desejo sumir no final da rua. 


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24 de fev. de 2012

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXIV

Não o via há semanas e pouco haviam se falado nos últimos meses. A distância estava sendo cruel com eles. Apenas as lembranças das noites tórridas acalantavam sua saudade. Ele constantemente enviava-lhe mensagens românticas e declarações apaixonadas, mas falavam-se pouco. Ela estava aborrecida com aquela relação e acreditava que todo o empenho dele em demonstrar seu afeto seria no intuito de não fazê-la desistir da história deles. Ela chegara a mencionar a possibilidade de por um fim a tudo, mas ele o fizera crer que o amor que sentiam seria eterno. 
Ia tocando os seus dias, estudando, lendo muito e escrevendo sua dissertação. Quase não saía mais de casa para divertir-se ou conhecer outras pessoas. Sentia-se presa a um homem que não estava ao seu lado, que não era seu. Isso a deprimia. 
Entrou em crise consigo mesma, questionou suas escolhas, seu modo de vida, sua solidão. Já bastava de tristeza e melancolia, não suportava mais sofrer com a espera de algo que parecia cada vez mais distante de sua realidade. 
Afinal por que se deixara envolver por um homem como ele, comprometido até a alma, se lá fora um universo inteiro de possibilidades batia à sua porta...?

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17 de dez. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXIII

Ela se fora ao amanhecer, levando consigo a sensação de que havia sido a última vez. Preferiu deixá-lo dormindo, a ter que vê-lo partir outra vez. Mas se fosse mesmo a última vez, não haveria porque arrepender-se, teria trocado a eternidade por aquela noite. 
A Mulher Só chegou ao bar do Hotel Arts antes das oito. No balcão, pediu um gim tônica. Tomou três e depois dirigiu-se, meio cambaleante, ao saguão do hotel. O Homem Sem Tempo havia acabado de descer e trazia uma rosa vermelha nas mãos. Seus olhos não acreditaram quando pousaram sobre aquela mulher cuja boca e sapatos tinham a mesma cor da rosa que ele segurava. 
Ela estava estonteante. Era a visão do paraíso e ele desejou morrer ali, emaranhado naqueles cabelos revoltos, enlaçado por seus braços, ou pelas pernas longilíneas à mostra, sobre saltos que lhe pareciam impossíveis de se equilibrar. Nunca a vira ou a imaginara daquele jeito. Seu coração acelerava à medida em que ela avançava em sua direção. Parecia outra mulher. Ou era outra pessoa, ou estava possuída. Aproximou-se dele e nada disse, apenas respirava ofegante, fazendo o peito, preso num decote assustador, subir e descer, deixando-o ainda mais enlouquecido. E ele não conseguia tirar os olhos daquela boca incandescente. Beijaram-se de forma alucinada. E subiram sem trocar uma palavra. 
Mais tarde desceram para jantar, conversaram, beberam vinho e riram muito de seus desencontros. Ela estava feliz. Era a noite do Dia dos Namorados e ele estava ali. O que mais poderia querer? A vida toda? A vida toda seria muito tempo. Ela sabia que não merecia tanto. 
Subiram novamente, se amaram mais uma vez e a última coisa de que se lembrava era do som da sua própria risada e dos carinhos dele em seu rosto antes de adormecer. 

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16 de nov. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXII

Em Barcelona o dia 12 de junho era uma data como qualquer outra. A Mulher Só estava agradecida por estar longe das campanhas publicitárias que tanto provocam os corações apaixonados, quanto magoam os solitários. Sempre tentara não sucumbir aos apelos da mídia brasileira, mas neste ano, mesmo distante, ficava a imaginar como seria passar o Dia dos Namorados, mais uma vez, sozinha. 
Era mais um sábado quente de quase verão e choviam convites para as baladas nas boates. A Garota Francesa já havia reservado uma mesa e o DJ Catalão estava animadíssimo com a possibilidade de saírem juntos novamente. Não dissera que não iria, mas parecia que seu quarto a arrastava pra dentro. Pilhas de livros para ler e de páginas a escrever. Mas ela era só desencanto. 
Pouco antes das duas da tarde recebera uma mensagem de texto que mudara a cor do seu dia: 

“Chego a Barcelona hoje à tarde. Encontre-me às 20hs no Hotel Arts. Saudades imensas.” 

Ela não acreditava no que seus olhos liam. Era muita cara de pau dele enviar-lhe aquela mensagem achando que estaria disposta a vê-lo novamente, depois do bolo que havia lhe dado um mês atrás. Já haviam conversado sobre o ocorrido por telefone e e-mail, ela inclusive já havia decidido não lembrar, nem sofrer mais por aquilo. Mas fora tomada de surpresa e não sabia o que responder, por isso mesmo nada respondera. 
À noite, enquanto se arrumava para sair com os amigos, olhava insistentemente para o relógio. A Garota Francesa lembrava pela enésima vez que era cedo para se aprontar, ainda nem eram sete da noite e as boas festas não começavam antes das dez. Calçou um par de sapatos vermelhos de saltos altíssimos que a amiga lhe emprestara, pôs um vestido preto, caprichou no perfume e saiu sem pentear os cabelos e sem dizer uma palavra. 

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17 de out. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXXI 

Estava com dificuldades para traduzir alguns trechos de um livro importantíssimo para sua pesquisa e por isso cogitou solicitar a ajuda do seu amigo DJ Catalão. Telefonou-lhe, meio sem jeito, pois há algum tempo não se falavam. Ele atendeu com a alegria e disposição de sempre, prometendo ajudá-la, desde que aceitasse tomar um chopp com ele. Tudo na vida tem seu preço, pensou. Em compensação, seria bom sair pra arejar as ideias depois de dias debruçada sobre aquele trabalho. Marcaram num sábado à tarde, num café próximo à casa dela. 
Após revisarem a parte do livro que a interessava e somente depois de todas as anotações terem sido feitas, a Mulher Só aceitou tomar o seu primeiro chopp. O DJ Catalão já havia tomado uns seis, e ela rogava a Deus para que a tradução feita por ele estivesse fiel. Depois do primeiro gole, relaxou. Conversaram animadamente e mesmo tentando se esquivar das investidas daquele lindo rapaz o qual ela queria apenas a amizade e algumas aulas de um idioma difícil, conseguiu divertir-se e sentir-se menos tensa. Passara a semana contando as horas para finalizar aquela parte de sua pesquisa, pois acreditava que dali a alguns dias estaria explodindo de felicidade, nos braços de seu amado. 
Pouco antes das sete horas seu celular tocou. Era ele. Pediu licença ao amigo e afastou-se da mesa onde estavam, permanecendo de pé, próximo à saída. 
O DJ Catalão a observava enquanto falava. Não entendia quase nada de português, e ainda menos de leitura labial, mas viu surgir no semblante dela uma expressão de desalento. O sorriso que brotara no rosto ao atender o aparelho desapareceu por completo quando ouviu o Homem Sem Tempo dizer-lhe que não poderia viajar nos próximos dias. Antes que ele prolongasse a conversa e lhe prometesse uma nova tentativa de reencontro, ela cortou-o. Estava cansada de recusas. 
Desligou o celular e voltou à mesa, tentando não aparentar a tristeza e decepção que a dominaram. Sentou-se e pegou a taça de chopp que seu amigo lhe oferecera. 
- No et preocupis, estimada. La tristesa no li convé! 
Apesar de sentir-se destruída por dentro, sorriu-lhe e brindaram. Seu amigo não merecia seu mau humor e o Homem Sem Tempo não merecia que ela deixasse de tentar ser feliz. A noite caiu e após algumas taças e muitos brindes, passou a ver de outra forma o azul daqueles olhos brilhantes que estavam à sua frente.

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17 de set. de 2011

A história Secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXX 

Os dias que antecediam a chegada do verão deixavam todos bastante animados. Mas àquela altura, a Mulher Só era pura melancolia. Seu nome era saudade e a única coisa que podia servir-lhe de consolo era a certeza de que seu sentimento era compartilhado por seu amado. 
A angústia da distância se intensificava nos finais de semana, quando ele não se conectava à internet e seu status nas redes sociais e sites de bate papo apareciam sempre off line. Também nunca lhe telefonava aos sábados ou domingos. Isso a entristecia sobremaneira. Sabia que muito provavelmente ele estaria dedicando seus dias de folga à família. 
Certa vez arriscara ligar num domingo, início da tarde no Brasil. Ele atendeu ao celular com um “olá” tão estranho que ela imaginou tratar-se de outra pessoa. Perguntou se estava tudo bem e não prolongou a conversa. Ela desligou o celular, desconcertada, sentindo-se a pior das criaturas, envergonhada de si mesma. 
A partir daí passou a questionar-se acerca dessa relação, se essa felicidade momentânea, proporcionada por encontros furtivos, valeria a pena. Chegava a pensar que a angústia causada pela ausência e a falta de posicionamento dele era um preço muito alto a pagar por esse amor. 
Mas o Homem Sem Tempo sabia como convencê-la a mudar de ideia. Ele possuía o dom de usar as palavras e fazê-la crer que aquele amor era sim possível. E ela deixava-se levar por promessas que ele nunca fez. Gostava de ouvi-lo dizer que havia algo de inexplicável entre eles, dava-lhe a certeza de que o Homem Sem Tempo realmente acreditava que aquele amor pudesse transpor as barreiras do tempo e jamais morrer. 

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23 de ago. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXIX

Passaram semanas namorando à distância. O computador e o telefone minimizavam a ausência que sentiam um do outro. Faziam promessas e trocavam juras de amor, mas a Mulher Só, apesar de apaixonada, não se deixava iludir. Não fazia perguntas sobre a vida dele, nem cobrava nada, apenas vivia o momento.
Numa noite, o Homem Sem Tempo disse-lhe que iria a Barcelona estar com ela em breve. Não quis saber que desculpa ele daria em casa. Permitiu-se ficar radiante e preparou-se durante os dias que antecederam a chegada de seu amado.
Naquela quinta-feira à noite ela saiu dizendo à garota Francesa que iria encontrar-se ele. A amiga torcia pelos dois, embora soubesse bem como essas histórias costumam terminar. Emprestou-lhe o carro, dizendo que não se preocupasse com a hora de voltar.
Encontrou-o no bar de um pequeno hotel, localizado no centro de Barcelona. Estava vestido com a formalidade costumeira e exalava um perfume que a entorpecia. Quando a viu seu semblante sério e cansado deu lugar a um sorriso iluminado.
Beijaram-se apaixonadamente ali mesmo, de pé, próximos ao balcão onde ele tomava um uísque.
- Vamos ficar aqui? - ela perguntou, procurando onde sentar-se
- Não.
- Então aonde iremos?
- Pegar o elevador - ele respondeu piscando maliciosamente para ela.
Não havia porquê esperar. Não havia como deter aquela paixão incontrolável que os consumia. Ela teve tempo apenas de pegar o celular e enviar uma mensagem de texto.
Em casa, preparando-se para dormir, a Garota Francesa ouviu um bipe de mensagem chegando no celular. Verificou o aparelho:

"Só volto amanhã"

- Uh, lá lá..! - exclamou, num misto de  espanto e animação.

9 de ago. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXVIII

Após a partida do Homem Sem Tempo, ela retomara sua rotina. Decerto que seus dias nunca mais seriam os mesmos, pois as lembranças dos momentos vividos com ele se eternizariam em sua memória. 
Agora tinha, novamente, apenas a sua solidão por companheira. Concentrava seus esforços nas atividades do dia a dia, nas leituras e na pesquisa, mas sempre era tomada de assalto pelos pensamentos que o traziam de volta. 
Falavam-se pelo celular de vez em quando, trocavam mensagens apaixonadas por e-mail, e vez por outra ela adentrava a madrugada conversando com ele num site de bate papo. 
Apesar da distância, estava feliz por saber que o sentimento que nutrira por tanto tempo, era correspondido na mesma intensidade. Chegava em casa todos os dias ansiosa por uma nova mensagem, ou por encontrá-lo online. Naquela noite, o cansaço do dia fizera com que esquecesse a ansiedade. Quando finalmente conseguiu tomar um banho e cair na cama, olhou para o computador e decidiu checar seu correio eletrônico. E ali encontrou um bom motivo para dormir feliz. 
              
"Menina,
Apesar da cólera e indisposição que me tomam, sinto-me mais forte e melhor à medida que converso contigo, quer seja por mensagens, por telefone ou pessoalmente. Você tem um significado pra mim. Não é apenas atração, é a necessidade vital de te sentir, de compartilhar momentos contigo, de te amar, te fazer e receber carinho. Não sei explicar, não posso atribuir tão somente aos meus pensamentos, meus desejos, pois deixei de alimentá-los durante um tempo, tanto é que demoramos tanto para nos acertarmos, nos encontrarmos, enfim, chegarmos aos finalmente.
Você tem algo bom, que me faz sentir alegria, somente pela tua presença. Farei uma loucura, em breve, mas loucura aos olhos das pessoas, não aos olhos de nossa essência, pois somos da mesma essência que formou todas as coisas. Insisto que não é, somente, atração. É desejo, é paixão, talvez amor, sendo construído, forjado, no fogo do tempo."

To be Continued

19 de jul. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXVII

O Homem Sem Tempo embarcou para o Brasil naquela manhã fria, com a sensação de que a sua vida nunca mais seria a mesma. Não imaginava o quanto aquela mulher solitária e misteriosa poderia mexer consigo. Não parou de pensar nela um segundo sequer. Estava impregnado pelo cheiro dela, sua boca guardava o sabor de seus beijos e seus braços clamavam pelo corpo dela novamente. 
Sentia-se tomado por um sentimento arrebatador, que parecia entorpecê-lo. Gostava daquela sensação, daquele torpor que nos impede de ver a realidade e nos faz desejar apenas a companhia do ser amado. 
Não era só desejo, ele sabia. A admiração pela Mulher Só surgira há muitos anos. Mas eles desencontraram-se e se perderam. Também não podia imaginar que ela correspondesse ao interesse que ele sentiu no passado. Era uma mulher séria, parecia distante, compenetrada, focada em seus objetivos, e ainda por cima, casada. Não se arriscaria. Não se arriscou. E a perdeu. 
Queria ter ficado mais tempo com ela em Barcelona, desvendado seus mistérios, conquistado seu coração. Precisava fazê-la perder o medo de entregar-se, desapegar-se de valores ultrapassados, que os impediriam de serem felizes. Mas não podia. Suas obrigações e escolhas o chamavam para a realidade, lembrando-lhe que os arroubos juvenis não cabiam mais a um homem como ele. 
Infelizmente. 
Sua esposa certamente estaria à sua espera no aeroporto e questionaria os reais motivos que o fizeram ficar na Europa, e quase obrigá-la a embarcar sozinha um dia antes. Estavam no aeroporto de Lisboa, prestes a embarcar para o Brasil. Angustiado, ele disse que precisava voltar ao hotel para pegar alguns documentos que havia esquecido no quarto. Ela telefonou-lhe insistentemente, até que ele atendeu e orientou-a a embarcar. 
- Resolvo tudo ainda hoje e viajo em seguida - mentiu - Não deixe de embarcar, eu vou tentar remarcar minha passagem para o próximo vôo. 
E sua Esposa assim o fez. Quando confirmou a partida dela, o Homem Sem Tempo foi para o aeroporto e tomou um vôo rumo a Barcelona, onde viveria os momentos mais felizes dos últimos tempos. 

To be Continued

9 de jun. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXVI 

Sentiu um arrepio percorrer-lhe as costas. Abriu os olhos lentamente e observou seu quarto sob a sutil penumbra do amanhecer. 
Estava deitada de costas, nua. Sentiu novamente algo delicado percorrendo-lhe o corpo. Virou-se e lá estava ele, sentado na beira da cama. Um sorriso meigo iluminava-lhe o rosto, aproximou-se dela e beijou-a de leve nos lábios, em seguida ofereceu-lhe a rosa púrpura com a qual passara os últimos vinte minutos acariciando-lhe as costas. 
- Amo-te! – entregou-lhe a flor – Mas preciso partir.
Ela sorriu, espreguiçando-se. Estava feliz e mal podia acreditar no que seus olhos viam: O Homem Sem Tempo, que amara secretamente por tanto tempo, havia passado a noite inteira consigo. Antes que pensasse se tratar de um sonho, relembrou os acontecimentos do dia anterior. 
Na manhã de domingo acordara com o celular tocando, e ainda meio tonta, levantou-se para atendê-lo: 
- Estou em Barcelona, vim despedir-me de ti. - do outro lado da linha, como uma música suave, a voz do Homem Sem Tempo soou. Mas como ele poderia estar lá? O que fizera com a esposa? – Meu vôo fez uma escala e devo passar algumas horas na cidade, acabei de chegar ao aeroporto. 
Ele não lhe dava tempo para organizar os pensamentos. Sem ir diretamente ao assunto, despejava sobre ela a decisão de vê-lo, como se ela pudesse escolher. Sabia que se não fosse encontrá-lo, provavelmente o perderia novamente. 
Arrumou-se, pegou emprestado o carro da Garota Francesa e rumou ao encontro de seu amado. Abraçaram-se, saudosos, e foram conversar enquanto tomavam café. Ela arriscou sugerir uma volta pela cidade, ele assentiu, e lá se foram. Passearam lado a lado pelo bairro Gótico, depois visitaram o Museu Picasso. Após almoçarem num restaurante em frente ao mar, no bairro de Barceloneta, ela perguntou-lhe, olhando o relógio: 
- A que horas sai o seu vôo? 
- Saiu há exatos 45 minutos. Agora vou ter que passar a noite aqui. – Ele disse, prendendo o riso e demonstrando tranqüilidade, após constatar que já passava das 14hs. 
Ela apenas riu, feliz. Não perguntaria mais nada. Passearam o resto da tarde pelas ruas de La Rambla, reduto de turistas. Lá pelas tantas lembrou-se de que precisava devolver o carro à amiga, que provavelmente o usaria para sair à noite.
Em casa, entregou às chaves à Garota Francesa, que apressou-se em sair, ao perceber o que estava prestes a ocorrer. 
Ficaram os dois na sala, acompanhados de uma garrafa de vinho tinto, duas taças e um vaso contendo rosas de cor púrpura sobre a mesinha de centro.

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18 de mai. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXV 

Os últimos acontecimentos deixaram-na doente. Estava acamada. Não sabia se fora pelo abuso do álcool, ou pelas expectativas frustradas, mas seu estômago não aguentara os excessos da noite anterior. 
Após ler a fatídica mensagem que noticiava a chegada de sua Esposa, o Homem Sem Tempo deixou-a na estação e ela, ainda meio embriagada, achava graça da situação. Dormiu um pouco, recobrou a sanidade perdida com a bebedeira, e embora estivesse decepcionada, contentava-se com as lembranças dos momentos quentes e intensos que passaram no carro. 
Ele enviou-lhe um e-mail logo pela manhã, desculpando-se e prometendo um reencontro em breve. Disse-lhe que planejara um final de semana juntos, mas não estava em seus planos a presença da Esposa na cidade. 
Fechou o notebook com raiva. Experimentava pela primeira vez o gosto amargo de ser a outra. Lembrou-se de uma conversa que tiveram certa vez, onde ela lhe dissera: 
- Não tenho vocação pra amante, não sei ficar em segundo plano. Gosto de comemorar datas, de ficar junto no Natal, no aniversário... 
Ele respondeu-lhe, rindo: 
- Acostumei-me a dar plantão em época de festas... quase nunca passo o Natal em casa. 
Ele sabia como desconversar e desviar o foco quando o assunto era sério. E com ela quase sempre era tudo muito sério. Somente a presença dele com aquele sorriso contido e o cheiro másculo que exalava, conseguiam quebrar suas resistências. 
Melhor seria voltar pra sua realidade e esquecer o fiasco que fora esse final de semana. O homem a quem amava e desejava cada dia mais, estava fazendo-a colecionar frustrações. 
Olhou para sua escrivaninha, onde havia uma pilha de textos para ler e a escrita para colocar em dia. Mas dentro dela, nenhum ânimo para sair da cama. 
A Garota Francesa entrou no quarto oferecendo-a uma xícara de chá. Ela agradeceu e bebeu. As duas conversaram sobre a noite anterior. Sua amiga torcia para que o romance deslanchasse, mas que fosse algo bom para ambos, sem falsas promessas, sem expectativas vãs, sem sofrimento ou arrependimento. 
E era assim que tinha que ser, se tivesse de ser. 

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28 de abr. de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXIV

Foram a um barzinho no Bairro Alto, reduto da boemia lisboeta, cujas mesas ficavam sobre a calçada, assim podia-se conversar e beber ao ar livre, como no Brasil. Ambos se agasalharam e pediram um vinho pra espantar o friozinho do final do inverno europeu. A Mulher Só mal podia acreditar que estava vivendo aquele momento com o homem que tanto desejara, e do qual por pouco não desistira.
Ele puxou a cadeira para perto dela. Brindaram. Olhava nos olhos dele de forma intensa e com um risinho contido no canto dos lábios. Era a forma que encontrara de esconder a timidez e não voltar atrás.
Jantaram, beijaram-se e um desejo incontrolável tomou conta dos dois. Ele pediu mais vinho, e ela, divertindo-se com a sensação de perigo eminente, bebia, ria e o provocava. O Homem Sem Tempo percebeu que ela bebera um pouco além da conta, por isso não demoraram a sair dali. 
Entraram no carro, que estava num estacionamento próximo ao bar. Beijaram-se e um fogo se acendeu no meio deles. Sob o efeito do vinho, a Mulher Só libertou-se de seus preceitos e não percebeu que estava entregue. Só conseguia pensar no que seu corpo pedia e que nada poderia controlar aquela sensação arrebatadora. O desejo que os consumia precisava ser saciado.
- Vou te levar para o hotel! - Sussurrou ele ao ouvido dela
Em resposta, ela pulou no seu colo, beijando-o alucinadamente. Ele queria rasgar-lhes as roupas ali mesmo, mas o celular começou a tocar insistentemente. Ela afastou-se.
- Vai atender?
Ele não respondeu, puxou-a novamente para perto de si. O aparelho silenciou por um momento, e quando já estavam novamente nos braços um do outro, ouviram um bipe de mensagem.
- Deve ser importante, é melhor você verificar - ela disse, ajeitando-se no banco do carona.
A contragosto, ele pegou o aparelho. O silêncio que tomou conta do carro naquele instante foi estarrecedor. A expressão no rosto do Homem Sem Tempo denunciava que algo muito desagradável ocorrera. Jogou o celular para o lado e pôs as mãos na cabeça, em seguida esmurrou o volante do carro.
Ela não disse nada. Apanhou o celular no chão e leu a mensagem que aparecia no visor:

"Surpresa! Vim encontrar-te em Lisboa. Estou esperando-o no aeroporto, beijos."


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