Palavras de Alento

30 de mai de 2011

Imprescindível Agora

Hoje em dia existe uma infinidade de coisas que, segundo propaga-se, servem para facilitar nossa vida. Passa por toda sorte de categoria, desde pequenos objetos, a aparatos tecnológicos de última geração. Fato é que, a humanidade sobreviveu por milênios sem sentir falta deles, mas agora ficam totalmente perdidos se não os tiverem por perto.
Elenquei alguns.
- Restaurante a quilo: Nos grandes centros, como Salvador, quem dispõe de tempo pra ir almoçar em casa? Com o trânsito enlouquecedor daqui, eu certamente infartaria ao volante se tivesse que voltar pro trabalho dirigindo após o almoço. Quando comecei a trabalhar, nos idos dos anos 90, levávamos a famosa "marmita" de casa. Hoje em qualquer esquina encontra-se um restaurante a quilo. Nas proximidades da escola onde trabalho são quatro. Sete anos atrás, era apenas um.
- Cinto de segurança e cadeirinhas para crianças: Os cintos já existiam, mas ninguém usava-os, até tornarem-se obrigatórios. Sobre as cadeirinhas só tomei conhecimento quando meu filho nasceu, porque enquanto criança, nunca usei. Agora imagine a garotada solta no banco de trás, fazendo uma bagunça retada e enlouquecendo quem dirigia. E o pior, num momento de acidente, voavam pelo pára-brisa. Morte certa.
- Telefone celular: quem vive sem ele? Antigamente se ligássemos pra casa de alguém e não encontrássemos, provavelmente esperaríamos até a noite, ou o dia seguinte, pra falarmos. Nada era urgente. Hoje a gente dá uma volta enorme pra buscá-lo quando esquece em casa, e quase todas as pessoas que conheço, tem mais de um número. Virou vício trocar de aparelho, tem sempre um mais moderno...
- Carro: Não é nenhuma invenção atual, mas já reparou que todo mundo tem? Até eu! Digo isso porque quando comecei a trabalhar, objetivava comprar um apartamento, nunca pensei em carro. Mas depender desse sistema de transporte coletivo que temos é quase indigno!

Ah, é isso, senão o texto fica enorme e ninguém quer ler. Contribuam. Há algo sem o qual você não vive, e que não existia há alguns anos?
Essa é do tempo em que era moda fotografar crianças em cima do capô do carro e não existia máquina digital pra gente ver a foto logo após o clique.


26 de mai de 2011

TPM (Toni, Paty e Mel)

Um amigo me chamou pra cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso, e fui.
Clarice Lispector

Passando pra dizer que os dias frios, cinzentos e nublados estão ficando para trás, porque nenhuma dor pode ser mais forte que o amor e a amizade que nos une.

Há mil razões para viver, querer e merecer ser feliz de novo! 

Novembro/2000

Um grande abraço a todos que estiveram (e estão) conosco nesse processo.

22 de mai de 2011

Xô, xô, xô!

Uma da melhores obras do escritor português José Saramago, na minha opinião, é um livro de 2005, intitulado "As Intermitências da Morte". A pedido do próprio autor, suas obras não são traduzidas para o português "brasileiro", e com isso acaba por afastar muitos leitores, mas quem tiver curiosidade, vale a pena ler. O livro relata o caos que se instala num país fictício quando a Morte, cansada de sua rotina e de ser odiada pela humanidade, resolve tirar férias. 
Ultimamente ando pedindo à Dita Cuja que dê um tempo novamente, ou pelo menos, "me mire, mas me erre" porque não tenho mais condições psíquicas de enfrentá-la. É uma briga muito covarde, onde eu sempre perco, fico só, choro, me sinto fraca, uma merda.
Preciso voltar a viver minha vidinha de alice, tocar a rotina, criar meu filhote, finalizar minha monografia, malhar, namorar, sair, beber, trabalhar em paz... 
Enfim, depois dessa tenebrosa sequência de encontros com a Dona Morte, quero passar um bom tempo longe de hospitais, correr léguas pra não cruzar com um cemitério e se falarem em doença grave perto de mim, eu juro que mato um!
Falando sério, tem sido tão difícil encarar esses momentos, que eu só estou fazendo isso por amor aos meus grandes amigos Antonio e Emmerson. Mas depois dessa temporada, eu acho que mereço ver o sol entrar pela minha janela novamente. E se a Velha da Foice se atrever a chegar perto novamente, eu vou fazer como meus alunos e dizer bem forte e bem alto:
Vaza, canhão!

18 de mai de 2011

A história secreta da Mulher Só e do Homem Sem Tempo

Capítulo XXV 

Os últimos acontecimentos deixaram-na doente. Estava acamada. Não sabia se fora pelo abuso do álcool, ou pelas expectativas frustradas, mas seu estômago não aguentara os excessos da noite anterior. 
Após ler a fatídica mensagem que noticiava a chegada de sua Esposa, o Homem Sem Tempo deixou-a na estação e ela, ainda meio embriagada, achava graça da situação. Dormiu um pouco, recobrou a sanidade perdida com a bebedeira, e embora estivesse decepcionada, contentava-se com as lembranças dos momentos quentes e intensos que passaram no carro. 
Ele enviou-lhe um e-mail logo pela manhã, desculpando-se e prometendo um reencontro em breve. Disse-lhe que planejara um final de semana juntos, mas não estava em seus planos a presença da Esposa na cidade. 
Fechou o notebook com raiva. Experimentava pela primeira vez o gosto amargo de ser a outra. Lembrou-se de uma conversa que tiveram certa vez, onde ela lhe dissera: 
- Não tenho vocação pra amante, não sei ficar em segundo plano. Gosto de comemorar datas, de ficar junto no Natal, no aniversário... 
Ele respondeu-lhe, rindo: 
- Acostumei-me a dar plantão em época de festas... quase nunca passo o Natal em casa. 
Ele sabia como desconversar e desviar o foco quando o assunto era sério. E com ela quase sempre era tudo muito sério. Somente a presença dele com aquele sorriso contido e o cheiro másculo que exalava, conseguiam quebrar suas resistências. 
Melhor seria voltar pra sua realidade e esquecer o fiasco que fora esse final de semana. O homem a quem amava e desejava cada dia mais, estava fazendo-a colecionar frustrações. 
Olhou para sua escrivaninha, onde havia uma pilha de textos para ler e a escrita para colocar em dia. Mas dentro dela, nenhum ânimo para sair da cama. 
A Garota Francesa entrou no quarto oferecendo-a uma xícara de chá. Ela agradeceu e bebeu. As duas conversaram sobre a noite anterior. Sua amiga torcia para que o romance deslanchasse, mas que fosse algo bom para ambos, sem falsas promessas, sem expectativas vãs, sem sofrimento ou arrependimento. 
E era assim que tinha que ser, se tivesse de ser. 

To Be Continued

14 de mai de 2011

Chega de Perdas!

1989
Maci pergunta a Antonio:
- Patrícia perdeu Dão. Mercinho perdeu Celeste. E você vai perder quem?

Essa frase nos marcou, como tantas outras ao longo desses 24 anos de amizade. Uma amizade fortalecida pela convivência e pela maturidade adquirida na troca. Trata-se de uma cumplicidade ímpar, uma verdadeira irmandade.
Nos perguntamos o porquê desse laço, desse imbricamento de vidas, dessa sucessão inexplicável de acontecimentos.
Tivemos tempos diversos em nossas vidas desde a adolescência. Tempo de descobertas, de aprendizado, de escolhas, de crescimento, de produção e reprodução. Agora vivemos o pior deles, o tempo das perdas. 
Quando criança nos dizem que temos que aprender a perder, e eu sempre encarei isso numa boa. Perder um objeto de valor, uma briga, uma prova, uma gincana, um namoradinho... Eu empinava o nariz e saía me achando madura e cheia de classe. 
Mas não aprendi a perder pessoas.
Perder para a morte é uma tremenda covardia, porque nada podemos contra ela.
Desde que nasci, a única pessoa que morreu na minha família foi minha bisavó. E ela já estava tão velhinha, que nos deixou uma sensação tranquila, de que ela foi descansar no reino dos céus, como sua fé a fazia crer.
A sensação que eu tenho é de que perdi meu irmão 3 vezes. A primeira quando descobrimos o câncer. A segunda quando ele foi parar na UTI, dias antes de finalmente dar adeus a esse plano. E a terceira no derradeiro dia de vida dele.
Tentei encarar tudo (a morte, o velório, o enterro, os domingos que ficaram vazios, o aniversário dele e o dia das mães sem ele) de forma tranquila, focando minhas energias no amor que nos uniu a vida toda e que certamente nos proporcionará o reencontro.
Mas quando Celeste (a tia, madrinha, mãe e pai de Mercinho) partiu, um questionamento estranho me tomou: Será mesmo que nós três estamos vivendo um círculo de perdas? Será que Toni terá que encarar a mesma dor dilacerante que eu e Mel sentimos? E por quê?
Recuso-me a aceitar esses tais desígnios que se dizem divinos. Acredito que enquanto há vida, há esperança, por isso, todos os dias, às 18horas, estou unida à corrente de orações, preces, rezas e vibrações positivas em torno de Daniel, para que ele reaja e não seja a próxima vítima desse maldito círculo de perdas.
2003

9 de mai de 2011

Pérolas

Tenho 57 alunos e leciono 5 disciplinas. Ao final de cada bimestre, após elaborar, imprimir e aplicar, são 285 avaliações para corrigir. Além disso, têm as atividades no caderno, algumas pesquisas e as anotações sobre a participação de cada um em sala de aula, que devem ser consideradas no momento de avaliar. Mas como o sistema exige a formalização de uma nota quantitativa, atribuo-a a partir da média desse catatau todo.
Sempre me angustiei diante de dificuldades de aprendizagem sérias, mas acredito que, em alguns casos é apenas falta de atenção ou apoio da família. Por causa do empenho e esforços por mim desprendidos, eu fico realmente furiosa com deslizes bobos que comprometem o resultado final. Apesar disso, vez por outra me deparo com verdadeiras pérolas, que acabam me fazendo rir.
Considero deprimentes aqueles e-mails com as "pérolas do Enem", porque refletem o terrível déficit da nossa realidade educacional. 
Refleti junto com as turmas sobre as dificuldades de cada um, esclarecendo os pontos onde houve mais confusão. 

Agora deixo pra vocês algumas pérolas dos meus alunos. 

- Cite 3 pontos turísticos da cidade de Salvador
Resp.: Sete Portas, Barroquinha e Madeireira Brotas

- Quem foi o fundador da cidade de Salvador?
Resp.: Os habitantes

- Cite uma contribuição dos portugueses para a cultura brasileira
Resp.: Bater nos escravos

É pra rir ou pra chorar?

6 de mai de 2011

Os Embalos de Sábado à Noite

Faz tempo que o meu embalo sábado à noite é num quarto, acompanhada por uma criança que adora dormir abraçadinho à mamãe, mas que antes de render-se ao sono, dá centenas de pulos na cama. 
Já não consigo mais embalá-lo, devido aos seus quase 15kg, mas sem dúvida tenho adentrado muitas madrugadas acordada, seja aferindo sua temperatura, em tempos de crises de garganta, ou levantando-me para levá-lo ao banheiro, de modo que não acordemos, imersos numa poça de xixi, como já aconteceu algumas vezes.
Nunca entendi o porquê da frase: "Ser mãe é padecer no paraíso", até ser mãe, claro!
Padecemos sim. São noites em claro ninando, amamentando, depois desmamando, depois tirando a fralda noturna, sem falar quando estão doentes e temos que faltar ao trabalho, porque nada substitui a presença da mãe quando um filho adoece. 
As preocupações são infinitas: se comeu bem, se está se desenvolvendo normalmente, se cortou o cabelo, se foi maltratado pela babá, se brigou com algum coleguinha na escola, se está fazendo birra, se fez malcriação com a vovó... Hoje denominaram-me "mãe enxaqueca", e nem vou explicar porquê...
E o paraíso? O paraíso existe, claro. É quando você olha aquele rostinho e sente uma paz enorme, percebe que valeu a pena e que faria tudo de novo, porque vê-lo correr na sua direção, adormecer em seus braços e dizer "eu te amo" de forma espontânea, deve ser exatamente o tal paraíso da mãe.

Queria desejar às minhas amigas que já são mães, um excelente dia, na companhia de suas preciosidades.
Às que ainda não experimentaram a sensação de ter seu coração batendo noutro corpo, eu desejo que o desejo de vocês se torne realidade, e que vocês não tenham medo, porque o amor é uma coisa boa. E esse amor é o mais puro e real que pode existir.
Às minhas avós (onde tudo começou), tias, madrinha, prima, irmã, sogra, cunhada e às mães de meu queridos amigos, os meus sinceros parabéns pelos seres humanos incríveis que vocês trouxeram (ou ainda estão trazendo) ao mundo.
E por fim, mas não menos importante, à minha mãe, que recentemente sofreu a dor que dói mais, que é a de perder um filho, e portanto esse Dia das Mães não será o mesmo para ela. O meu muito obrigado pela vida toda, mãe, e o meu pedido para que fique mais perto de nós, porque, além de tudo, a vovó quebra um galhão quando a mamãe precisa sair pra curtir um embalo no sábado à noite.

Um dia lindo a todas nós!

2 de mai de 2011

Dois Meses Sem Ele


Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói.
Um tapa, um soco, um pontapé, dóem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que já morreu.
Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos.
Dóem essas saudades todas.
Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos.
Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá.
Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.
Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.
Saudade é não saber.
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos.
Não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento.
Não saber como frear as lágrimas diante de uma música.
Não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.

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